Uma família TDAH. Quem disse que isso não existe?

Redação e Edição: Carla Simone & Larissa Laviano

Raquel já era mãe de uma linda menina de seis meses, Mariana, quando descobriu que estava grávida de novo. Uma surpresa! Demorou até que se acostumasse com a ideia. Até que, numa fria manhã de julho do ano de 2006, ele chegou: Evandro, seu lindo menino louro.

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Raquel Calais é viúva e mora com os dois filhos na cidade de Muriaé, Minas Gerais. Presenteou a gente com uma conversa cheia de sotaque mineiro. Uma delícia!

Ele era um bebê bonzinho e antes de completar um ano já dava os primeiros passinhos. Foi cedo para a escolinha, acompanhado pela irmã. A mãe era chamada várias vezes na escola e, quando chegava, via seu menino, sempre esperto e levado, correndo descalço pelo pátio, sob o olhar atento das professoras, que a aconselhavam: “achamos que seria bom levar seu filho à um especialista, porque ele é agitado”. “Eu o levei ao neurologista, que disse que talvez fosse apenas uma fase e que, caso eu percebesse alguma alteração mais grave ou um aumento nas queixas da escola, deveria voltar”, conta Raquel.

O tempo passou e, em 2013, Evandro foi para outra escola, uma vez que onde estudava havia apenas educação infantil. “Já no terceiro dia de aula ele não tinha lápis de cor e os cadernos estavam em branco”, lembra Raquel. “Fui chamada para uma reunião com a equipe da escola, diretoria, apoio pedagógico e a professora, que ficou muda, me olhando, enquanto eu sentia que ela estava rezando para que meu filho nunca mais voltasse lá”. Os relatos que a mãe ouviu eram de uma criança que não conhecia: agressiva, indisciplinada, intolerante. Afirmaram para ela que era um menino hiperativo e que deveria procurar um neurologista.

No mesmo dia, Raquel procurou desesperada na internet um neuropediatra, afinal ela precisava de um especialista. Encontrou um nome aleatório e, ansiosa, ligou na mesma hora. Não havia vaga. A mãe chorou no telefone, explicando sua situação e, meia hora depois a recepcionista ligava de volta, avisando que tinha conseguido um encaixe para aquele mesmo dia. Raquel, então, colocou os filhos no carro, chamou sua mãe, e partiu ruma à cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, para uma viagem de duas horas. Nessa época, Raquel tomava suas decisões sozinha: havia ficado viúva em 2010.

“Entrei no consultório, onde fui extremamente bem recebida e, enquanto uma demorada consulta acontecia, meu anjo louro derrubava a sala da médica, que agia naturalmente. Duas horas depois ela disse assim: ‘bom, você está aqui em busca de um diagnóstico e seu filho é TDAH sim e já apresenta as comorbidades da doença – ele provavelmente apresenta transtorno bipolar, TOD, ansiedade generalizada e precisa de medicação, tratamento e acompanhamento para sempre”. A médica pediu para que voltassem em 21 dia e que a mãe não desanimasse: precisando, estaria ali para orientá-la. “Você é guerreira e vai vencer, ela me disse”, conta Raquel, que não desanimou e fez tudo que a médica pediu. Em 90 dias começou a perceber melhora no menino.

Hoje, dois anos e meio após o início do tratamento, estão sob controle. E por que “estão”, no plural? Porque Raquel descobriu que a doença tem uma parcela genética e que também tem TDAH, assim como várias pessoas da família de sua mãe. A descoberta se deu em uma das consultas a que foi para poder entender melhor a questão do transtorno e ajudar seu filho. Começou a se identificar com as características do TDAH e, também,teve seu diagnóstico. “Provavelmente o pai deles também tinha TDAH. Quando era pequeno, conta minha sogra, era um menino impossível”, conta Raquel.

Ela sempre foi bastante inquieta, apresentando problemas de concentração: quando começava a ler um livro, sempre tinha que voltar na primeira folha por ter esquecido daquilo que já tinha lido, por exemplo. Segundo a fisioterapeuta – sim, ela venceu as dificuldades e concluiu o ensino superior –, só conseguiu alcançar seus objetivos na vida porque se dedicou muito e tem pais bastante persistentes. “Eu brinco que era uma árvore e fui transformada num bonsai”, diz Raquel. Bastante falante e agitada, sempre teve que se conter muito.

Ela conta que a sensação que tem é que está aprisionada e que sente que seu “cérebro está querendo pular para fora da caixa craniana, quer sair correndo”. Tendo o diagnóstico de TDAH, tenta fazer as coisas de forma mais correta. Percebe, por exemplo, que atropela as pessoas quando falam e tem aprendido a se controlar, ouvir mais do que falar.

Raquel Calais é mãe de Mariana, de 10 anos, e Evandro, que completará 9 anos em 1º de julho. Os dois são bastante amigos e Mariana está sempre pronta à ajudar o irmão. Viúva, ela mora com os dois filhos na cidade de Muriaé, Minas Gerais, e presenteou a gente com uma conversa cheia de sotaque mineiro. Uma delícia!

Raquel é mãe de Mariana, de 10 anos, e Evandro, que completará 9 anos em 1º de julho. Os dois são bastante amigos e Mariana está sempre pronta quando o assunto é ajudar o irmão. E tem coisa melhor que amor de irmão?

Raquel Calais é mãe de Mariana, de 10 anos, e Evandro, que completará 9 anos em 1º de julho. Os dois são bastante amigos e Mariana está sempre pronta à ajudar o irmão. E tem coisa melhor que amor de irmão?

Tem vários primos com TDAH, além dos tios, e vê, junto com eles, que a luta é diária, eterna. “Não existe isso de que ‘amanhã vou acordar melhor’”, afirma. Em meio à polêmicas geradas sobre o TDAH, Raquel desabafa: “quando dizem que não há fator genético, que é uma doença inventada, gostaria muito que isso fosse verdade. Mas também queria que essas pessoas passassem um dia em meu lugar, para entender como tudo funciona e quais as dificuldades, que são muitas, de viver com esse transtorno”.

“Nunca questionei os propósitos de Deus em minha vida”, afirma Raquel, “apenas peço forças para continuar lutando não só por meu filho, mas por todas as pessoas com TDAH”. Raquel é feliz com seus filhos, que considera um presente de Deus. “Ele e minha filha, minha princesa, que ajuda o irmão e chora junto nos momentos de dificuldade dele, são a minha vida”. Mariana, a irmã mais velha, não tem o transtorno, mas está sempre ao lado do irmão. Raquel reforça a importância de ensinar aos dois o valor do amor e da amizade entre irmãos: os dois tem bastante a aprender um com o outro.

Hoje, Raquel trabalha em duas comunidades carentes, atendendo acamados, nas cidades de Muriaé, onde mora, e de Rosário da Limeira. Além disso, também está sempre disponível para ajudar e tirar dúvidas de mães que ficam perdidas nesse mundo do TDAH. Mais do que conselhos, ela as orienta a buscar os direitos de seus filhos. Afinal de contas, informação é uma ótima munição, tanto para vencer a luta do dia-a-dia do TDAH quanto para eliminar preconceitos.

Jornalista responsável: Carla Simone

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7 pensamentos sobre “Uma família TDAH. Quem disse que isso não existe?

  1. Linda e emocionante estória de sua vida com o tdah. E é realmente assim, descobertas, insegurança, e somente quem convive com o tdah sabe e sente que não é invenção, é real, é umas luta incessante nas busca de mais entendimento sobre o assunto, e tbm pra conseguir que as pessoas entendam e respeitem as pessoas com tdah, assim como qualquer outra patologia. Tdah é mais real do que se imagina. E somente com muita união conseguiremos desmistificar. Com ” trabalho, desafio, amor e humor.

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  2. Fiquei emocionada. Tb tenho um filho com TDAH e TOD ele está prestes a fazer 15 anos e várias vezes vim da escola chorando desde o jardim. Ainda estamos na luta, seu caderno ainda fica em branco, ele ainda vem se metendo em confusões um pouco mais graves …tb desconfio que seu pai tenha TDAH pq é desligado demais. Mas fé em Deus sempre! Não estamos sozinhas.

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