Tenho TOD e daí? Vai encarar?

Redação e Edição: Carla Simone & Larissa Laviano

“Você já assistiu ‘Os Vingadores’? Não? Vou te contar uma coisa. Sou muito parecido com o Drº Bruce Banner – o Hulk. Sabe por quê? Como ele mesmo diz, ele está sempre com raiva.”

O personagem Bruce Banner, da Marvel, é uma figura doce…mas, que não pode ser contrariada. Quando isto acontece, ele se transforma no Incrível Hulk. É assim que o nosso entrevistado de hoje traça um paralelo de seu perfil.

Já para os pais, os portadores do Transtorno Opositor Desafiador (TOD), são um grande teste de paciência e persistência.  Essas crianças, desde cedo, não sabem lidar com regras, ordens e disciplina. Fazem “birra” em qualquer lugar. Parecem não ter filtro. Falam o que vem à mente, insultam as pessoas e as culpam pelas suas atitudes desagradáveis.  Por conta disso, não conseguem fazer amigos, muito embora, sejam sedutores, amorosos e muito inteligentes. Sabem argumentar como ninguém. Conseguem ter uma relação de amor e ódio facilmente com quem quer que seja.

Desta vez, por se tratar de um relato concedido por um adolescente de 12 anos, não iremos identificá-lo. Será tratado como Bruce e vai nos descrever como ele se sente neste mundo. Sua mãe e pai, que serão tratados como Maria e João, nos ajudarão nesta tarefa de descrever a vida de uma pessoa que é portadora do TOD.

“Muitas vezes, eu acho que as pessoas pensam que eu sou louco. Minha mãe e meu pai já me levaram em muitos médicos. Já tomei um monte de remédio e já não sei quantos exames fiz na minha cabeça. O que eles não entendem é que a vida pra mim não é nada fácil. As pessoas não me entendem e nem gostam de mim. Sou feio e nada interessante. Posso dizer que sou mais bonito que meu irmão. Só! Sei que sou nervoso. Mas, juro que tento me controlar muito. Mas, às vezes, fica muito complicado. E não é me colocando de castigo que vão conseguir que eu os obedeça. Estou no 8º ano. A coordenadora do Colégio queria, desde o ano passado, me adiantar de série e minha mãe não deixou. Ela diz que eu não tenho maturidade. O que ela não entende é que eu já sei tudo o que o professor explica!”, esta é uma das falas do Bruce.

De acordo com Maria e João, o comportamento do filho sempre foi motivo de preocupação. Ele começou a andar aos 11 meses e a falar frases com cerca de 1 ano de idade, o que chega a ser precoce. Ao mudar de cidade, aos dois anos de idade, Bruce foi para escolinha. Lá tinha vários episódios de descontrole. Gritava, chorava, jogava as cadeiras nos coleguinhas e professoras.  Aos três anos de idade começou fazer terapia com uma psicóloga. Os pais percorriam cerca de 600 km, ida e volta, todos os sábados, para passar com a profissional e nada. Seu comportamento destoava do irmão, que é um ano mais novo.  A família, que sempre foi muito reservada, procurava não frequentar lugares com muita gente. Afinal, os acessos de “birra” podiam acontecer a qualquer momento. Os pais também passavam por psicólogos, que diziam que Bruce precisava se sentir acolhido, precisava  ter um “lugar”.  Afinal, ele ganhara um irmão muito rápido. Não tivera tempo de se sentir filho. “Eu me sentia o tempo todo culpada. Vivia me perguntando onde eu estava errando. Por que o Bruce fazia estas coisas? Por que gritava tanto? Por que arranjava tanta confusão?”, conta Maria.

Resolveram voltar para São Paulo. Acreditavam que a capital efervescente do país traria a solução para os conflitos.  “Matriculei meu filho na escola em que estudei quando criança. Acreditava que lá ele seria acolhido e se acalmaria. Mas, foi mais uma ilusão. Ele tinha 6 anos de idade e nada mudava. As crises de raiva só pioravam. O mais incrível é que suas lições, tanto em sala de aula, quanto as de casa, eram perfeitas. Com esta idade já fazia letra cursiva. Contudo, assim que acabavam as lições, a guerra com os coleguinhas começava”, relata o pai.

Mudar de escola foi a solução encontrada. Bruce passou a frequentar a terapia novamente e a psicóloga à época pediu que o levasse ao psiquiatra infantil. Foi um momento difícil, afinal, assim como grande parte da população, o casal tinha o preconceito. “Psiquiatra é médico de louco. Meu filho não é louco.” Depois de muito relutar levaram a uma médica que passou Fluoxetina. “Nossa! Foi lindo! Durante os três primeiros meses Bruce mudou muito. Já não brigava. Não chorava e não gritava por tudo!”, diz a mãe.  Porém, o sonho logo acabou. A medicação parou de fazer efeito. Bruce voltara a ser impulsivo e muitas vezes agressivo.

Mais bilhetes, mais reuniões na escola e mais uma troca de colégio. A ideia dos pais era que em um ambiente maior, com mais crianças, ele pudesse se esconder no meio da multidão.  Nesta nova instituição, a coordenadora tinha certa experiência com crianças “assim”. Ela dizia com muita confiança que tudo daria certo. Os pais respiraram e confiaram. Afinal, nova escola, outra oportunidade e mais medicação. A tentativa deu certo por um tempo. Mas, mesmo medicado, a personalidade e a inteligência de Bruce chama atenção. Muito irônico, passou a provocar a ira dos colegas, que logo deram um jeito de agredi-lo. Começaram os bullyings, os bilhetes na agenda, as reuniões com a diretora e parecia que ele já não era mais tão bem vindo assim. “Ao completar oito anos, resolvemos fazer uma festa no condomínio pra ele. Pedimos que ele entregasse os convites na escola. Ele, muito contente, o fez. Não apareceu nenhum convidado. Minha esposa se escondeu para chorar e eu saí em busca de crianças para cantar os ‘parabéns’. Foi muito dolorido ter certeza que meu filho não tinha nenhum amigo…”

“Antes do Bruce completar 10 anos de idade, parei de trabalhar fora e resolvi me dedicar integralmente aos meus filhos. Aí, todas as vezes que o telefone tocava, o meu coração disparava. Sabia que tinha que ir à escola por algum motivo relacionado a ele. Assim fui desenvolvendo gastrite nervosa. Brigava com ele, gritava, xingava e pedia pra  me explicar por que  fazia isso? Eu dizia que ele não me amava. Que não queria se ajudar. Afinal, tinha psicóloga – que atendia a qualquer hora do dia e da noite, médico e remédio! O que mais eu devia fazer?”, relata a mãe, que mais uma vez resolveu trocá-lo de colégio.

Com a mudança, trocou de psicóloga e médico.  Os profissionais anteriores não estavam surtindo efeito algum. O psiquiatra chegou a dar ao Bruce uma cartilha sobre transtorno bipolar. O que Bruce festejou como se tivesse encontrado a solução para os seus problemas. Finalmente ele seria entendido e respeitado.  Os pais resolveram que o melhor seria trocar tudo e partir para uma terapia cognitivo-comportamental. O novo médico tirou a medicação forte e trocou para uma mais leve.  A mãe foi para um retiro de meditação e passou 10 dias por lá, em silêncio. O pai tirou férias e ficou com os dois anjinhos. A mãe voltou percebendo um pouco mais seus sentidos e como os seus sentimentos, comportamentos e estados emocionais afetam os filhos.  Percebeu que a mudança só iria acontecer se a família mudasse seu modo de olhar para o Bruce, também. E assim todos têm trabalhado.

Bruce passou a dormir melhor. Antes vagava pela casa de madrugada. Reconquistou o direito de frequentar a escolinha de futebol e pode jogar videogame três vezes por semana – quando não apronta nenhuma em casa ou na escola. Seus professores gostam muito dele e elogiam sua inteligência e sagacidade. Seus colegas estão aprendendo a conviver com seu humor ácido. Afina, ninguém é perfeito. Os pais ressaltam que, apesar do temperamento explosivo, Bruce é muito carinhoso, amável, caridoso, obediente e respeitoso.  “Às vezes, as brigas acontecem por besteira. Ele precisa ouvir da nossa boca que pode fazer alguma coisa, que o irmão teria feito primeiro e depois comunicado…”, diz o pai, rindo.

Hoje, ele tem  12 anos, uma “namorada” na escola, alguns poucos amigos e continua reclamando que poderia acabar o ensino médio mais cedo. Pra contrariar os pais, que o deixam sem videogame quando ele não se comporta, agora virou ateu.Slide6

“Eu digo pra minha mãe que eu a amo e que ela é minha chatinha. Ela diz que eu sou o chato dela, também. Eu sei que sou meio nervosinho. Que para os meus pais o meu quarto é uma bagunça. Mas, ninguém sabe o que é ter que se controlar o tempo todo. Ter que ser algo para que a sociedade te aceite. Não posso ser o que realmente sou. Meus pais não entendem  que, quando estou no videogame, com os meus amigos virtuais, eles não me cobram. Posso ser, simplesmente, eu”, finaliza.

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