OS OUTROS SÃO OS OUTROS

Por Daniel Carvalho

 

received_10213376156422963

Todo ano gosto de marcar a data de hoje: o dia internacional do Rock N’Roll. Talvez a música que mais me defina. Aquela que ajudou a moldar a minha estética de uma maneira geral. Pra mim é libertação, catarse, liberação, fluidez, espiritualidade, conexão (intra e extra). Rock é a raiva que você subverte em música. Geralmente posto um vídeo bacana de uma banda, ou uma imagem engraçada. Mas hoje não.

Hoje eu tenho outra coisa pra falar: é que este ano descobri a segunda marcação desta data. Hoje também é o Dia Mundial do TDA(H).

Quem me conhece mais de próximo sabe que eu não tinha muito o hábito de falar disso, mas recentemente o tenho feito bastante. Este ano, aos 36 anos, fui finalmente diagnosticado com o Transtorno do Déficit de Atenção (eu não tenho, nem nunca tive, a Hiperatividade). Era algo que desde que me tornei educador desconfiava. Explico: minha primeiríssima experiência com o magistério foi com uma turma de recuperação de meio de ano em que um dos 6 alunos tinha TDA(H). Severo. Tipo, de repente, pegava as coisas e jogava pra cima, ou dava um berro e saia correndo pela sala afora. No fim do trabalho, ele me abraçou, me pediu desculpas e disse que ele era assim, que ele não conseguia controlar. Ele me pediu desculpas por ser ele. Aquilo me impactou profundamente. Fui buscar informação pra ajuda-lo. Acabou me ajudando. Eu tinha 23 anos. Estou, portanto, há 13 na busca do diagnóstico. Entre inseguranças, desistências, quadro depressivo, e muita incompreensão de quem está de fora, foram mais de 30 anos com o Transtorno.

Hoje eu me entendo melhor. Sou esquecido, desmemoriado, relapso porque nasci assim; porque meu cérebro é diferente do tal do “normal”. Eu não consigo me concentrar mais do que 20–30 minutos em quase nenhuma tarefa. Minha memória pra arquivamento de coisas é uma bosta completa (eu já até esqueci que tomei banho assim que sai do banheiro; só lembrei quando botei a mão na cabeça e senti meu cabelo molhado). Sou péssimo com dedicação e empenho em uma tarefa específica. Eventos longos me perturbam profundamente. A lista é grande…

Nestes mais de 30 anos convivendo com isso (muitos deles sem saber), eu aprendi algumas coisas.

– Que as pessoas não se importam contigo. Se se importassem, te perguntariam como você se sente. E não te perguntam não.
– Ao invés disso, elas preferem te julgar. Apontam o dedo e reforçam suas falhas.
– Isso cria a pior coisa com a qual tive que lidar nestes anos todos: o estigma. Eu tive que aprender sozinho as estratégias de sobrevivência pra lidar com um mundo que não tá nem aí pra sua condição. Eu não pude contar com a ajuda de ninguém, as vezes por que não tinha ninguém pra pedir, as vezes porque eu, com o medo que o viver assim me criou, não queria pedir pra ninguém.

A estigmatização é de longe a pior coisa com a qual quem tem TDA(H) tem de lidar (e isso serve pra quem tem outros transtornos mentais, como ansiedade, depressão, pânico, toc etc.). Te etiquetam de tudo. E você, em um determinado momento sucumbe e veste a roupa que te dão. Sobrevivência. A maioria não enxerga maldade no que faz, algumas poucas são cruéis mesmo. Mas o fato consumado é que isto tem um poder de afetação gigantesco em quem tem o transtorno. É devastador e molda a personalidade da pessoa. Até hoje eu recebo uma enxurrada de incompreensão e julgamentos (e talvez ainda receba aqui) quando digo que o TDA é parte de quem sou, da minha identidade.

Meu diagnóstico foi complicado. Passei pela curiosidade, devassando leituras sobre o assunto, conversando com especialistas amigos. Passei pela negação: “não pode ser, como nunca ninguém viu”. Passei pela afirmação: “acho que é isso mesmo, tem que ser”. E logo depois a incompreensão alheia: “você tá procurando só uma desculpa, uma muleta, quer se entupir de remédio”. Passei pela carapuça: “não vou ver mais nada, vão me julgar; prefiro sofrer aqui do que me apontarem mais o dedo”. Viver a incompletude. É isso. Você olha pra tudo quanto é lado e só vê incompletude num mundo que te cobra ser completo; e que a alardeia. “Eu nunca consegui”, “eu nunca fiz”, “eu nunca realizei”… Eu nunca. A incompletude te acompanha incansavelmente.

Hoje to na fase da plenitude. Entendi que me apontarão o dedo sempre. Sempre vão se meter, sempre vão me julgar. Mas nunca, NUNCA ninguém vai compreender verdadeiramente o que passei e o que passo por conta disso. As pessoas se acham no direito de te falarem coisas, mas hoje eu descobri que quem eu tenho que ouvir sou eu mesmo. E me ouço, todos os dias. E estou bem, muito bem. Tenho o mesmo TDA, acontece tudo igual, mas eu me aceito assim. Uma vez que você entende que sempre será incompleto, e que todos na verdade também são, não tem mais porque se sentir mal. Viver a incompletude. É isso.

Trinta e seis anos…

Eu olhava pra trás e costumava ver o quanto eu perdi por conta do TDA: repetência escolar, várias enrolações na graduação, uma pós perdida, uma infinidade de cursos e projetos pessoais abandonados, demissões de empregos, amizades relaxadas. Isso foi durante muito tempo um Daniel engraçado pra muita gente. Eu era o desmiolado. Eu mesmo sobrevivia rindo. Hoje eu olho pro que eu consegui APESAR do TDA, e sozinho: me graduei, sou educador apaixonado pelo que faço, sou concursado, terminei um mestrado, tenho um relacionamento forte e estou construindo uma família linda.

Isso é algo que as pessoas não veem: o quanto de coisas boas tem uma pessoa com TDA. Pode soar estranho dizer isso, mas sim, existem pontos positivos. Temos uma cabeça multitarefa (quando estamos em um dia sem ansiedade… rs), somos extremamente criativos, somos rápidos (temos que aprender a fazer nos 20 min de concentração que conseguimos ter o que os outros tem 4 longas horas à disposição), desenvolvemos aptidões múltiplas (abandonamos muita coisa, mas por isso mesmo, temos contato com uma infinidade delas). Enfim, hoje eu tento lidar com o TDA, fazer uma limonada dos limões que me deram.

Há muita desinformação e preconceito com relação ao TDA(H). Se vocês ouvissem as histórias que ouço de mães, pais, jovens, crianças, adultos que de alguma forma se relacionam com o dito cujo, vocês mudariam a perspectiva sobre as coisas. Gente desesperada porque não sabe o que fazer com o filho que não consegue ir bem na escola, porque briga com os colegas, porque nunca é convidado pras festinhas dos amiguinhos, porque a escola, a avó, o vizinho, todo mundo só reclama e só vê o ruim. Pessoas sozinhas. Que tem que lidar com tudo sozinhas. Que tem que aprender a ser e a enfrentar sozinhas. Gente desesperada, e sozinha. Trinta e seis anos… E aí caem na medicalização desnecessária, no conto do “indivíduo-problema”. Depois, mais gente a apontar o dedo: “você dá remédio e não precisa; ele não é doente”. Não, não é. Doente é o mundo que não aceita quem é diferente. Remédio é a fuga desesperada de quem só tem solidão em volta. Como criticar?

Eu não escrevi isso tudo pra que sintam pena de mim ou pra que se sensibilizem comigo. Eu queria ter escrito este longo post, com meu curto depoimento (se eu deixasse ele seria gigantescamente maior), justo pra tentar mobilizar quem conseguir ler ele todo. Se a palavra é empatia, seja empático antes de ser juiz. A situação é muito mais complexa do que parece, sempre. Porque de fora ninguém nunca consegue ver a bagunça que pode estar lá dentro. Hoje eu me trato e tenho me descoberto outra pessoa, que eu nem sabia que tava ali; outras potencialidades, outras possibilidades. De novo, trinta e seis anos. Eu não queria ter demorado tanto, sofrido tanto pra chegar aqui. Mas foi o que aconteceu comigo. E escrever este texto longo não é só um desabafo, é também uma tentativa de mostrar pra quem quer que seja que há caminhos mais curtos e menos doídos. Vá se buscar. Vá se encontrar. Vá se aceitar.

Os outros são os outros.

View story at Medium.com

Anúncios

Deixe aqui seu comentário pra gente:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s